Guilhermina Augusti por ALINE ALBUQUERQUE
Canto de sombra, sementes de por vir
Não fazemos apenas estética. Estamos em premonição com traços, sons, imagens, etc. O confronto vem daí, mas ele não consiste na força que nos move. O que podemos gerar é o que nos interessa. Há vida em nós, mesmo estando abaixo de toda superfície. Então, cavamos algum túnel sempre em direção ao futuro dessa história, e ao que ela poderá gerar, independente da possibilidade libertadora que possa conter e ativar.
J. J. Gadelha
em Habitar a escuridão: materialidades negras, o olho e a quebra
Em tempos de acirramento de tensões sociais no Brasil, resultante de séculos de carregão colonial, uma bandeira dança no céu da Pequena África, região portuária do Rio de Janeiro, com as palavras ESCURECER e ATRAVESSAR. Entre as palavras, uma seta preta corta horizontalmente o tecido azul e aponta para o espaço aberto da imaginação. Ao redor das palavras, a presença de seis pequenas figuras geométricas amarelas abre o campo semântico. A geometria é uma linguagem espiritual, uma tecnologia ancestral, propõe enigmas a serem decifrados para a compreensão do pensamento, da prática, e não apenas estética, de Guilhermina.
Uma bandeira é um elemento que comunica à distância, é um recado coletivo, um convite à ação. Os verbos apresentados no infinitivo sugerem movimento, aquilo que move-ser, corpo e pensamento. É uma proposição para transformar o mundo a partir de duas premissas que fundamentam a existência da artista. Imponente bailarina na imensidão de céu do Rio de Janeiro, azul e estrelado, quando disposta na empena de galeria, a bandeira explora o linguajar estético como proposta de enigma. Um quadrado em laço na cinza revela no encaixe das excepções, a bandeira amarela nos enigma com sete estrelas amarelas ao lado, apontando para um lugar outro nas bordas do sistema limite e imaginamos outros passos possíveis. A ação é sempre urgente e indubitável, e germina enquanto é possível, a proposição semeada antes da palavra ao gesto, e deixa entrar ventos de sonho e potências futuras para serem cantadas.
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Guilhermina Augusti por Caique Cavalcante
Atos/Simbologias é a primeira mostra individual da artista Guilhermina Augusti e traz, além de obras conhecidas como a bandeira “Atravecar/ Escurecer”, hasteada durante seis meses no museu de arte do rio em 2022, sua primeira série de serigrafias. Dividida em três eixos conceituais, habitar a cidade, habitar a lua e eclosão, as obras apresentam a investigação que a artista realiza em torno da simbologia e signos presentes nas religiões afro-brasileiras e em outras culturas africanas, como os símbolos Adinkras dos povos Ashanti que habitaram o território hoje conhecido como Gana na África ocidental.
O contato com essa simbologia se deu, em algum grau, através do trabalho de Rubem Valentim, Abdias Nascimento e Yêdamaria, nomes com os quais Guilhermina tem
dialogado frontalmente, coletando formas e cores que fazem parte da pesquisa desses artistas. Nessa exposição, impera a obsessão da artista em construir estratégias de exceder criticamente os limites impostos pelas categorias de raça, sexo e gênero, refletindo como essas construções atentam severamente contra seu corpo e sua prática. Permeada pelo desejo de habitar, fazer do cosmos morada, a artista reivindica a lua enquanto esse ambiente possível para que as vidas negras e atravecadas possam existir em conformidade com seus desejos, distantes da miséria e da penúria que assolam o agora. O seu assentamento na lua configura a tentativa de não sucumbir aos ditames de um realismo que se apresenta como fixo e imutável empurrando esses corpos ao desaparecimento. Diz ainda, sobre a necessidade de criar ambientes em que artistas negros, trans e indígenas sejam capazes de experimentar radicalmente em seus trabalhos sem ceder as investidas do sistema da arte em sua missão predatória.
CAIQUE CAVALCANTE
Guilhermina Augusti por DENILSON BANIWA
Não sou matéria, não sou real e não estou aqui
por Denilson Baniwa
Em “Tristes Trópicos”, Claude Lévi-Strauss nos apresenta duas estratégias para enfrentar a alteridade utilizadas na história humana: a antropoêmia e a antropofagia. A primeira consiste na identificação do diferente, do estranho na sociedade e a necessidade de anulá-lo de qualquer interação social, separá-lo dos “normais”, deportá-lo ou colocá-lo no cárcere e se nada surtir efeito, assassiná-lo. A segunda estratégia seria a da “desalienação” das substâncias corporais diferentes e, através do metabolismo da ingestão, incorporar os espíritos do Outro até que se tornem um só corpo.
Essas estratégias aplicadas à construção histórica da sociedade são ampliadas para outras formas que vão desde a colonização forçada até a apropriação de culturas inteiras por determinados grupos sociais. Enquanto a antropoêmia procurava a destruição completa do Outro, a antropofagia buscava a destruição ou suspensão de sua alteridade.
A iconoclastia na arte não é recente e muito menos nasceu com a geração dos artistas que começaram a ocupar lugares, que antes sequer vislumbravam, ascendendo no cerne de uma cosmologia eurobranca de origem patriarcalista e de higienização social. O que há de novidade na geração de Guilhermina Augusti, artista de origem paulistana e radicada no Rio de Janeiro, é a possibilidade de preencher um imaginário para além do que é palpável através de um trabalho de antropofagia mutante e urbana. É a criação de uma cosmologia diversa que atravessa mundos, reais e virtuais.
Se antes a possibilidade de reescrita só era possível por meios físicos, hoje na virtualidade dos mundos, é possível refundar digitalmente uma nova ontologia. Com ela a artista experimenta, dada a sua formação em filosofia e trabalhos computacionais, a reorganização pelas ontologias filosófica e computacional. A artista reorganiza dados (históricos e/ou computacionais) para construir, a partir das ruínas, novas imagens ou preencher no imaginário uma ausência histórica.
A pesquisa da artista caminha a partir da reflexão sobre a construção da história e em como desvinculá-la da imagética colonial. Guilhermina Augusti nos provoca a pensar sobre como fomos perdendo a capacidade imaginativa, conforme a colonização moldava paulatinamente nosso modo de ver o mundo. Ao mesmo tempo em que nos entrega novas maneiras de enxergar a realidade e nos provoca novas imaginações, a artista revela um mundo mutante, que nos leva a espaços sobrepostos de colagens de outros mundos, onde devemos caminhar trocando de roupa, de pele ou de estado de matéria.
Ao entrar na sala da exposição, uma sentença nos é apresentada, um díptico iconográfico que traduz as muitas falas da artista, entrevistas ou publicações em suas redes sociais, o imaginar de outra história que faça escurecer a já conhecida narrativa branca colonial. Na parede, aos olhares do público, reconhece-se a iconografia do símbolo pátrio em suas cores imperiais, mas ao invés de ser cortada pelo lema positivista do francês
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